Artistas ocupam e transformam em teatro um imóvel abandonado no Recife Antigo

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O local, rebatizado como Espaço Vivencial, está previsto para receber o público em 2016, mas já começa a retomar uma história que começou nos anos 1970

A fachada de um dos casarões da Rua Vigário Tenório, no Bairro do Recife, pode não dar pistas, mas lá dentro está acontecendo uma iniciativa que traz de volta o legado do Grupo de Teatro Vivencial, um dos mais influentes e iconoclastas do teatro pernambucano. Três dos integrantes remanescentes, Henrique Celibi, Fábio Coelho e Guilherme Coelho decidiram utilizar um casarão antes abandonado como nova base para atividades teatrais. O local, rebatizado como Espaço Vivencial, está previsto para receber o público em 2016, mas já começa a retomar uma história que começou nos anos 1970 e voltou a ganhar força no ano passado.

“A partir dessa comemoração, apareceram muitos projetos novos, muitas propostas. Queríamos um local para abrigar nosso material e, além disso, há vários livros e material acadêmico sobre nós. Na verdade, o Vivencial nunca acabou oficialmente. Muitos dos trabalhos feitos hoje no teatro pernambucano, como a Trupe do Barulho, nos tiveram como precursores”, afirma Guilherme Coelho, que, após o fim do grupo, tornou-se professor universitário e mora atualmente em um monastério em Novo Gama (GO).

Atualmente, o prédio, construído em 1910, recebe apenas amigos do trio, que visitam o local para ver apresentações fechadas. O local ainda guarda cenografia e material de futuros espetáculos de Fábio e Henrique e também abriga parte do acervo do Grupo de Teatro Vivencial. Ao entrar no prédio, é possível entender por que o local ainda não foi aberto ao público. Ainda faltam vários reparos. Os outros andares, fora o térreo, têm o chão recoberto por tapumes e carecem de pintura nas paredes e cobertura no teto. Ainda assim, Fábio se instalou por lá para garantir a ocupação do local.

Segundo Henrique Celibi, a situação já esteve bem pior no casarão, cujo último empreendimento comercial foi a boate Balada Pop. “Levamos três meses para retirar o lixo que estava no sobrado. Encontramos a construção com pedaços de gesso espalhados e sem a madeira dos pisos superiores. As tábuas foram roubadas por serem de madeira de lei. Tiramos três caminhões-caçamba só de dejetos. Fechamos o telhado com tapumes e isso também serviu para diminuir a infestação de pombos dentro do sobrado”.

Guilherme detalha a relação do projeto com o entorno. “A vizinhança tem sido solidária. O prédio estava totalmente destruído e servia de abrigo para dependentes de drogas. A construção já foi saqueada e incendiada, e a insalubridade de lá ameaçava os restaurantes vizinhos”. Segundo o trio, a proprietária do local está ciente da ocupação do sobrado e eles vão entrar em negociação com ela para que o Espaço Vivencial entre em atividade. A reportagem não conseguiu entrar em contato com a dona do imóvel.

Fotos: Guilherme Veríssimo/DP/D.A.Press

Fotos: Guilherme Veríssimo/DP/D.A.Press

A reforma começou a ser feita com recursos próprios do trio, mas a ideia é buscar parcerias na iniciativa privada. Uma construtora e uma empresa de gastronomia já manifestaram interesse, segundo Guilherme, em se juntar ao Espaço Vivencial. Para ele, o uso de edifícios abandonados se torna uma alternativa viável para uma ocupação racional da cidade. “Em plena Rua do Imperador, por exemplo, no coração do Recife, você vê edifícios incríveis, mas depauperados. Ao mesmo tempo, temos pessoas precisando de moradia e grupos teatrais que não têm sede e precisam de um local para desenvolver as atividades. É bom que pessoas e grupos se organizem para dar um uso a esses prédios. Em outros países, esse assunto é tratado de outra maneira, mais tranquila”.

Como vai ficar

O sobrado está dividido em quatro pavimentos, que devem ser ocupados de acordo com os novos usos previstos para eles

Térreo
Galeria de arte e comedoria

Mezanino
Espaço para cursos, oficinas e exposições artísticas

1º andar
Teatro com capacidade
para 250 lugares, dois mezaninos onde ficarão balcão e camarins

2º andar
Espaço para guardar o acervo, centro de documentação e residência, tanto para integrantes do grupo quanto para hospedagem de coletivos teatrais de outras cidades

O Vivencial

O Grupo de Teatro Vivencial começou como um coletivo de igreja, a Associação de Rapazes e Moças do Amparo (Arma). Tornou-se um dos ícones do desbunde em Pernambuco e foi referência afetiva para o filme Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Trouxe reflexão sobre gênero, sexualidade e a situação política do Brasil em plena ditadura, por meio da ironia e do escracho. A criação do Espaço Vivencial também se relaciona à existência do Vivencial Diversiones, casa em Sítio Novo, Olinda, que sediava apresentações nos anos 1980.

Novos projetos

O Espaço Vivencial já abriga a cenografia e o figurino do espetáculo Devir mulher, que questiona as noções de masculino e feminino. A montagem deve estrear em 2016, no próprio Espaço Vivencial. O sobrado também abrigou oficina de cenografia de Fábio Coelho. O local guarda a cenografia da peça Cabaret Diversiones, que estreia em agosto, no Teatro Hermilo Borba Filho. Quando a temporada terminar, a ideia é de que as apresentações passem a acontecer no casarão da rua Vigário
Tenório.

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