Casa de diarista em São Paulo ganha prêmio internacional de arquitetura

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Dalvina Ramos e o filho contrataram arquitetos para refazer imóvel.
Projeto foi considerado a melhor construção do mundo por site internacional.

Dona do imóvel na Zona Leste de São Paulo que ganhou o prêmio internacional “Building of the Year 2016” (melhor construção do ano), promovido por um dos sites mais importantes do segmento no mundo, o ArchDaily, a diarista Dalvina Borges Ramos, aos 74 anos, ainda não se acostumou com a cor de sua nova casa. “A parede eu até acho bonitinha, mas esse chão dá a impressão que é sujo. Quero colocar um piso branquinho para dar uma aparência mais alegre”, explica.

Telhado e paredes de concreto, chão de cimento queimado. A modernidade não agrada no tom, mas afaga ao garantir segurança: é sob teto firme que ela sempre quis viver. “Eu tinha medo. A casa estava caindo.”

A reforma foi planejada por Marcelo Borges, filho único da diarista, e o responsável por procurar um escritório de arquitetura com dois pedidos: urgência e orçamento limitado. O imóvel capengava não apenas pela idade avançada – foi adquirido por Dalvina há mais de 25 anos – mas também pela construção mal planejada.

A gota d´agua foi um dilúvio. Parte do teto desabou durante uma forte chuva na capital paulista em 2013. Dalvina estava no banho quando a estrutura caiu.

Parte superior do imóvel de Dalvina Ramos (Foto: Marcelo Brandt/G1)
Parte superior do imóvel de Dalvina Ramos
(Foto: Marcelo Brandt/G1)

“Ouvi um barulhão. Quando cheguei no quarto, aquele cenário, uma fumaça. Os pedaços de concreto estavam em cima da cama. Demorou um tempo pra ficha cair que tudo aquilo poderia ter ido em cima de mim”, relembra Dalvina. “Por sorte não pegou ela. Foi o alerta de que precisávamos resolver a situação”, recorda Marcelo.

Meses depois do incidente, começava o processo de reforma do imóvel de 95 metros quadrados, na Vila Costa Melo. O valor não poderia ultrapassar R$ 150 mil, montante acumulado pela diarista ao longo da vida.

A reserva era preciosa e resultado de décadas de suor e poupança. Dalvina deixou Brumado, interior da Bahia, nos anos 60. Ela, os pais e 14 irmãos saíram da zona rural nordestina rumo à Garça, interior de São Paulo, onde uma tia morava.

Trabalhou na roça paulista até ser contratada como empregada doméstica de uma família que um ano depois, mudou-se para a capital. Dalvina foi junto. Passou boa parte da vida residindo no emprego, fez de um quarto sua morada e do filho. No final dos anos 80, comprou o imóvel agora transformado – e premiado.

Há 31 anos trabalha como diarista de uma senhora na região da Mooca. Agora, guarda dinheiro para comprar armários e instalar um piso branquinho no chão. “Eu acho minha história bonita. É uma história de vida”, reflete.

Imóvel de Dalvina, na Zona Leste de São Paulo, ganhou o prêmio internacional “Building of the Year 2016” (melhor construção do ano), promovido por um dos sites mais importantes do segmento no mundo, o ArchDaily (Foto: Marcelo Brandt/G1) (Foto: Marcelo Brandt/G1)
Imóvel de Dalvina, na Zona Leste de São Paulo, ganhou o prêmio internacional “Building of the Year 2016” (melhor construção do ano), promovido por um dos sites mais importantes do segmento no mundo, o ArchDaily (Foto: Marcelo Brandt/G1) (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Mãos à obra
Em 2014, Marcelo recorreu ao escritório de arquitetura Terra e Tuma, indicado por parentes de sua ex-mulher. Explicou as necessidades da obra e as condições. “A documentação estava em ordem. Queríamos manter isso em ordem também. Não queríamos nenhum engenheiro assinando, e não queríamos fazer o que é muito comum no bairro: contratar um amigo, ou vizinho para fazer a obra”, explica.

O arquiteto Pedro Tuma, um dos três sócios do escritório, detalhou o projeto ao G1. “Uma das virtudes deste caso foi o impulso do Marcelo em ter procurado um escritório de arquitetura, cujo trabalho costuma ser vinculado aos altos custos. Eles fizeram uma proposta coerente e solicitaram um imóvel com dois quartos, sala, banheiro e área de serviço”, explica.

Foi justamente por ter conseguido otimizar o espaço a um orçamento restrito, que o escritório foi recentemente reconhecido com o prêmio internacional. Contudo, Tuma destacou que a opção por blocos de concreto aparente em toda a casa ao invés de materiais mais sofisticados não foi somente por conta do baixo custo.

“Levamos o prêmio porque trabalhamos pela democratização da arquitetura. Essa não é uma casa virtuosa, com acabamentos de última geração. E além do orçamento restrito, usamos aqueles materiais porque é a forma como entendemos o conforto. Uma casa com blocos de concreto e estrutura aparente privilegia o espaço ao invés da superfície”, explica Tuma.

Entrada da casa, na Zona Leste de SP, considerada a melhor construção do mundo (Foto: Marcelo Brandt/G1)
Entrada da casa, na Zona Leste de SP, considerada a melhor construção do mundo (Foto: Marcelo Brandt/G1)

A casa precisou ser demolida. Foi feita a fundação e um novo imóvel. O quarto da mãe fica no térreo, assim com a maior parte dos espaços construídos. Apenas a horta e o segundo quarto, geralmente ocupado pelo filho, ficam no andar de cima. Há uma grande janela que separa a cozinha da área de serviço e do jardim, e que atrelada ao pé direito alto da construção, proporciona luminosidade e amplitude aos espaços.

Os especialistas ainda fizeram um jardim central e uma horta no teto da laje da sala, projeto da paisagista Gabriella Omagui, que promove isolamento térmico ao impedir que o sol bata diretamente no local. Dalvina apresenta as plantinhas sugerindo receitas.

“O alecrim é ótimo para colocar na carne. Fica muito bom também para fazer com batatas. A cidreira geladinha é super refrescante.” Questionada se ela gosta de cozinhar, a diarista rebate revelando seu novo sonho: “Se um dia eu ganhar na Mega-Sena, a comida eu vou continuar fazendo e a roupa, lavando. Mas a casa eu vou querer alguém pra limpar.”

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