Cineasta brasileira é a nova votante do Oscar

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Cineasta brasileira é a nova votante do Oscar
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“Mal acreditei quando recebi a notícia. Achei que fosse um trote”, diz Anna Muylaert, que lança o filme Mãe só há uma

Mais nova votante da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a cineasta Anna Muylaert, do premiado Que horas ela volta?, mal pôde acreditar quando recebeu a notícia, dias atrás. É que, até o ano passado, apenas indicados e vencedores do Oscar podiam votar no prêmio mais importante do cinema mundial. “Chegou uma carta e eu pensei que era trote”, afirma ela.

“Como as lutas dos negros e das mulheres se intensificaram, convidaram mais de 600 novos membros neste ano. Na Academia, as mulheres representam 25%. Com a entrada das novas integrantes, o número subiu apenas 2%, mas já é um caminho.”

Anna abraça a luta pela igualdade em seu novo filme, Mãe só há uma, prestes a estrear. “Quando o filme termina, muitos me perguntam: ‘Mas o protagonista é gay?’. Não existe essa resposta. Acho que estamos nos encaminhando para um tempo em que os rótulos não vão existir.”

Como recebeu o convite para votar no Oscar?

Eu adorei, viu? Não só por mim, mas por toda a gente que entrou. Até o ano passado, a regra dizia que só quem já tivesse sido indicado ao Oscar poderia votar. Mas, no último ano, as lutas do negro e das mulheres ficaram muito fortes. E só havia 25% de mulheres entre os votantes. A Geena Davis abriu um instituto para medir a presença da mulher na tela. De cada quatro heróis três são homens nos filmes. Ou seja, filme protagonizado por homem é que ganha o Oscar.  Neste ano, a Academia decidiu convidar um número recorde, para começar a mudar isso. Contudo, nós, mulheres, só aumentamos em 2% o percentual. Mas já é um começo. Os homens ainda representam 73%.

A cineasta fala sobre o machismo no cinema:  (Foto: Divulgação)

Existe muita diferença entre o salário da mulher e do homem para dirigir um filme?

Os maiores orçamentos são para os homens. Os 100 maiores sucessos de bilheteria foram dirigidos por homens. Só chamam mulher para baixo orçamento. Pensam que mulher tem cabelo grande, que pode ficar grávida, que pode dar crise. É assim o raciocínio dentro desse Clube do Bolinha capitalista. Eles se encantam mais com o homem. As gravatas falam mais alto do que as saias. Menos quando se trata de sexo.

Qual é o caminho para diminuir o machismo dentro do cinema?

O ano passado foi um ano histórico. As mulheres estão muito inflamadas. O caminho é deixar inflamar. No dia a dia, assim como a homofobia e o racismo, o machismo acontece em pequenas frases, diminuições. As campanhas do Facebook têm ajudado. São pequenos meandros. A gente precisa entender por onde acontece. Não é só o homem, as mulheres também são machistas. É uma coisa intrínseca. Precisamos debater o assunto exaustivamente. Meu próximo filme será sobre o tema. Vou denunciar as práticas machistas.

Você dirigiria uma dessas comédias populares?

Não, eu nem faria (risos).

Por que é tão difícil emplacar outros gêneros?

Eu andei pelo mundo no ano passado e percebi que o cinema é bipolar e na Europa também. Filmes comerciais investem muito mais na publicidade do filme do que no próprio filme. E aí, você acaba indo assistir. A gente trabalha o autoral mais no boca a boca. E não é só no Brasil. Eu e os cineastas que queremos mais público tentamos fazer um cinema com um pé na qualidade e uma cabeça pop, que possa agradar. Mas que passe uma mensagem, traga uma discussão. Precisa comunicar e ter qualidade.

O que quer mostrar com o novo filme, Mãe só há uma?

Quero mostrar o processo de formação de identidade de um menino. Tenho dois filhos, um de 16 e outro de 21 anos. Voltei recentemente a sair na noite de São Paulo e percebi um cenário completamente diferente. Antes, tínhamos os héteros e os gays. Mas agora existe uma fluidez. Vi nas festas meninos de vestido e barba, homens transgêneros namorando mulher. O feminismo voltou com tudo. E cada ser é feito de masculino e feminino. A mulher absorveu uma porção masculina nos últimos anos. O homem agora entra em contato com sua feminilidade, que é saber ouvir, educar. Sinto que os rótulos estão acabando. Esse filme chuta o pau da barraca. Você vai gostar das pessoas pelo que elas são, essa multiplicidade.

Regina Casé caracterizada como a doméstica Val do premiado filme de Anna Muylaert   (Foto: Divulgação)

Você faz algum paralelo entre o filme Mãe só há uma e o anterior,Que horas ela volta?

Acho que Mãe só há uma é igualmente autêntico, foram filmados no mesmo ano. Mas Que horas ela volta? é meu filme mais maduro. Levou quase 20 anos para amadurecer. Com ele, estava tocando num assunto primordial na nossa cultura, a relação de empregador e empregado. Um assunto que dói. A divisão social no âmbito caseiro. Tomei muito cuidado para não fazer julgamentos. Não queria colocar ninguém na forca. Este novo já tem um pé no experimental, traz outra pesquisa. Quando você tem menos dinheiro, pode ousar mais.

Fonte: http://epoca.globo.com/

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