Em turnê, musicista volta à favela em que nasceu para ensinar adolescentes

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Em turnê, musicista volta à favela em que nasceu para ensinar adolescentes
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Jessica começou a tocar na orquestra de Heliópolis e hoje integra a YOA, com jovens do mundo todo.

“Eu morava numa casa parecida com essas”, diz Jessica Vicente, 22, enquanto avista a favela de Heliópolis, na zona sul de São Paulo. Ela está na janela da sede da orquestra sinfônica que leva o nome da comunidade e onde começou sua carreira como trompista.

A musicista voltou à favela em que nasceu nesta segunda-feira (31) para ministrar uma aula de trompa, sua especialidade. A jovem está em turnê pela América Latina com a YOA (Young Orchestra of Americas), orquestra que reúne jovens de 25 países.

Na casa onde nasceu, quatro pessoas –sua mãe, empregada doméstica, seu pai, pedreiro, Jessica e a irmã mais nova– dividiam o único quarto. Dos vizinhos e amigos de infância, muitos foram presos ou até mesmo mortos, diz.

Aos 12, como a mãe não tinha com quem deixá-la durante a tarde, ela entrou no Instituto Baccarelli, que mantém a orquestra de Heliópolis. Nunca tinha escutado música clássica até então. “Não tinha contato em lugar nenhum, nem tinha como ouvir.” A primeira alegria foi pelas viagens que fez com o coral do instituto (primeiro grupo do qual fez parte) para se apresentar em cidades como Curitiba e Resende (RJ).

Depois, viu que o rendimento na escola melhorou. “A primeira coisa que a música te dá é disciplina”, diz. “Eu sempre fui muito aplicada, mas a música ajuda muito no raciocínio e eu passei a ter mais responsabilidade.” Começou a estudar trompa, “um instrumento divino, porque só Deus sabe a nota que vai sair dali”, brinca. “Com uma posição só da mão, podem sair 10, 15 notas diferentes. É um dos instrumentos mais difíceis da orquestra”, conta a jovem.

E foi aí que se encontrou. Estudou na academia de música da Osesp(Orquestra Sinfônica de SP), apresentou-se em concertos na Europa e fez faculdade de música em São Paulo. Agora, tenta conseguir bolsa para fazer um mestrado fora do país.

Tentou entrar na YOA pela primeira vez aos 18 anos, mas não conseguiu. Neste ano, 5.000 pessoas concorreram às 80 vagas disponibilizadas por ano. Uma delas foi de Jessica –além dela, há outros cinco brasileiros no grupo. “Eu estudei inglês e não falava nada de espanhol”, diz, sobre as mais diferentes nacionalidades dos colegas de palco. “Mas a música é uma linguagem universal. Parece que todo mundo na orquestra já se conhecia”, conta.

Antes de chegar a São Paulo, tocou no Chile por duas semanas e também na Argentina. Nesta terça (1º) e quarta-feira (2), se apresentará com a YOA na Sala São Paulo, às 21h. Na quinta (3), o grupo tocará no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e, na sexta (4), em Ilhabela (SP).

Hoje não mora mais na favela. Com o marido, que conheceu também no instituto e hoje é violista no Theatro Municipal, mudou-se para São Caetano do Sul, cidade vizinha a Heliópolis. A família, no entanto, ainda está lá. “Penso todos os dias em tirá-los daqui. Olho casa e tudo. Mas ainda não consigo”, diz.

AULA

Quando chegou à sede da orquestra, na estrada das Lágrimas, prometeu não chorar. “Mas quando a professora me chamou para falar com o coral, eu lembrei de como era, com a mesma professora e o mesmo pianista… Eu não aguentei”, diz. “Ela falava: ‘Vocês têm que acreditar’, dava bronca. E a gente nunca acha que vai acontecer. Mas as coisas foram acontecendo”.

Um de seus alunos nesta segunda era o jovem trompista Edson Alves, 16, que sonha em seguir carreira na música e vê em Jessica um exemplo. “Antes um instrumento musical que uma arma na mão”, diz. “Assim como os alunos que se formaram antes foram para um exemplo para mim, eu espero que eu possa ser um também”, diz Jessica. “Não imaginei que minha vida fosse mudar tanto. Tem muita gente que não consegue porque não tem oportunidade. E, quem tem, precisa agarrar e abraçar essa oportunidade.”

Fonte: Folha

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