Tecnologia ajuda a resgatar identidade de alunos de zona rural do Rio de Janeiro

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Educadora mobilizou alunos e professores a usar tecnologia e mostrar que é possível desenvolver projetos de robótica se há motivação

Desde 2014, a Secretaria Municipal de Educação de Macaé (RJ) está com uma proposta de inovação pedagógica bem diferente. A gente trabalha com adesão por escola, e desenhamos projetos específicos para cada uma delas. Nós tivemos avanços bem significativos, tanto pro educador, quanto pro aluno. Eu criei o programa, que chama Inovar e Aprender, e ele já chegou a 10 escolas numa rede de 105. A gente atende 600 alunos em um universos de 40 mil. O projeto ainda é pequeno, mas cresce a cada ano.

Esse processo de mobilização das escolas foi bem de formiguinha. Como não tinha recursos para todas, eu elaborei para que a gente mantivesse só as conquistadas, as motivadas, em que alunos e professores estavam excitados por uma transformação e que topassem os desafios de pesquisa.

Tudo começou quando eu levei um kit de robótica pra um grupo de alunos de um escola do centro do Rio de Janeiro. Eles fizeram um projeto e foram apresentar em uma Feira de Responsabilidade social, em março de 2014. Nessa feira, dois alunos da Escola Municipal Natálio Salvador Antunes se interessaram em desenvolver projetos de robótica. Como eu tinha apenas um kit, decidi ligar pra Lego, super na humildade, perguntando se eles não tinham kits, que poderiam até ser obsoletos, para doação. Eu achei que eles iam me mandar uns dois, mas eles enviaram 10! Aí eu fui mobilizar as escolas para participar do programa Inovar e Aprender.

Não adianta fazer parceria com professores, tem que fazer parceria com o aluno, porque o processo é pra ele

Aqui no Rio de Janeiro, a gente tem algumas localizações rurais e periféricas. E a Natálio está numa dessas regiões, na Serra de Macaé, localizada no córrego do Ouro. Eu fui visitar a escola há exatamente dois anos, em maio de 2014. Quando cheguei, a orientadora pedagógica falou: “Ixi, ela não vai voltar mais, porque aqui não tem internet, não tem tecnologia. É só roça”. E eu disse que nós iríamos fazer uma mobilização, porque quando tem a vontade do professor e do aluno, já é uma história de ação.

Inicialmente, falei pro diretor que queria um espaço de conversa com o aluno. O importante é o aluno querendo. Não adianta fazer parceria com professores, tem que fazer parceria com o aluno, porque o processo é pra ele. Se eles topassem, a gente podia arrumar um professor-orientador depois. E foi isso que aconteceu. Eles toparam participar do projeto de robótica e convidaram a professora de matemática para ser a orientadora. Depois, com tudo desenvolvido, a gente organizou a primeira feira municipal de robótica.

Quando esses jovens do primeiro ano do ensino médio vieram pro centro da cidade para competir na feira, eles conheceram as equipes de outras escolas também a professora Regina, que é super motivadora e dedicada. Os alunos começaram a se empolgar tanto, que acabaram convidando a Regina, que era de uma escola do centro, para ser mentora deles. E ela foi!

A Regina ouvia relatos de professores da rede municipal que alguns computadores não funcionavam. E esse equipamento ficava lá parado. Ela começou a coletar e juntar esses dados. Por fim, todos esses computadores que não funcionavam foram mandados lá pra Natálio. A professora mobilizou os alunos e eles mesmos foram procurar tutoriais e arrumaram essas máquinas. Dos 15 computadores, 8 foram restaurados. Hoje, eles têm uma mega sala.

Os alunos começaram a perceber que dá pra usar toda essa tecnologia na agricultura, na colheita, na plantação. Então esse processo também foi um resgate de identidade, de potencialidade

Após esse processo, dois alunos da escola são bolsistas do CNPq. Eles estão pesquisando mais sobre robótica e tecnologia aplicada à agricultura. Esses jovens tinham vergonha da realidade onde estavam inseridos. Mas eu sempre batia na mesma tecla e falava “gente, o Brasil é o celeiro. É cafona, mas é isso. Aqui, vocês vão ter uma vida de potencialidades, vocês tem que amar isso aqui!”. Eles começaram a perceber que dá pra usar toda essa tecnologia na agricultura, na colheita, na plantação. Então esse processo também foi um resgate de identidade, de potencialidade.

Hoje, eu vejo a tecnologia como protagonista. Mas todo protagonista precisa de um coadjuvante, que somos nós. Eu acho que essa relação do jovem com a tecnologia pode estar impulsionando esse envolvimento tão grande. Antes, ficava muito na aceitação que lá na Natálio não tinha nada. Mas eles perceberam que também têm ideias, também têm condições de ampliar, de aprender, de criar. Deixaram de ver aquele universo só como a roça, o distante e longe.

Quando eu percebo que minha estratégia é possível a partir do meu esforço, esse empoderamento abre um horizonte. O aluno começa a dar significado pra aprendizagem. Quando tem significado, há dedicação, e aí sim o processo é efetivo como aprendizado, porque eu começo a usar isso na minha vida. A minha fala bonita pra mídia é que eu me sinto realizada e motivada a realmente hackear a educação.

Por: Luemy Ávila

É educadora e atua há 25 anos na rede pública e privada. Especialista em Tecnologia Educacional (robótica, programação, design, lógica, games e animação) e orientadora de inovações nas práticas pedagógicas. Há três anos, é gerente de Projetos Especiais na Secretaria Municipal de Educação SEMED Macaé RJ e idealizadora e gestora do Programa #inovareaprender de inovação pedagógica.

Fonte: http://porvir.org/

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