A força e a beleza das mulheres do mar

Luciano Candisani lança a exposição ”Haenyeou, Mulheres do Mar”, que mostra o cotidiano de mergulhadoras de mais de 60 anos da Coreia do Sul

Há 20 anos registrando comunidades ligadas ao mar em várias partes do mundo, o fotógrafo Luciano Candisani se surpreendeu ao conhecer a cultura das Haenyeo, que mantêm uma tradição de mais de 400 anos na Ilha de Jeju, na Coreia do Sul. Elas mergulham até 15 metros de profundidade em busca de polvos, peixes, conchas e outros frutos do mar, sem nenhum tipo de equipamento. Detalhe: cerca de 85% das 4500 mulheres têm entre 65 e 92 anos.

As Haenyeo lutam para manter essa cultura (incluída na lista da Unesco de Patrimônios Culturais Intangíveis da Humanidade), sem abandonar a prática do mergulho livre. “Nunca houve a incorporação de cilindros e outros equipamentos de mergulho autônomo, mesmo que isso significasse mais tempo embaixo da água e uma coleta muito maior. Elas têm a consciência de que isso representaria uma ameaça para aqueles recursos dos quais elas dependem”, explica Luciano, que viajou até a Coreia do Sul para capturar imagens do cotidiano das mergulhadoras.

O resultado poderá ser visto em um livro, que será lançado junto com a exposição Haenyeo, Mulheres do Mar, com estreia marcada para o dia 31 de agosto, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. “O ensaio fala sobre a condição humana e dialoga com temas como longevidade, pertencimento, saúde na maturidade, amizade e peculiaridades dessas senhoras que estão em plena atividade, são prósperas e felizes”, diz Luciano, parte do time de fotógrafos da National Geographic.

A seguir, ele conta mais detalhes sobre a cultura das Haenyeou e fala sobre os desafios de fotografar a muitos metros de profundidade.

Tpm. De onde veio a ideia de fotografar as Haenyeo? 

Luciano Candisani. Em 2017, a cineasta Lygia Barbosa ganhou um edital na Coreia do Sul para produzir um filme lá e decidiu contar a história das Haenyeo. Ela já tinha viajado comigo em trabalhos para a National Geographic e teve a sacada de usar minha experiência como fotógrafo documental como um fio condutor da história. Eu teria que produzir um ensaio fotográfico sobre as mulheres do mar e ela faria o registro para o filme. Meu envolvimento com a história foi muito grande e tive a sensação de que aquilo também deveria ganhar vida própria, virar exposição e livro.

O que o público pode esperar da exposição? É um ensaio que fala sobre a condição humana e dialoga com temas como longevidade, pertencimento, saúde na maturidade, amizade e peculiaridades dessas senhoras que estão em plena atividade, são prósperas e felizes. Também mostra a força da mulher, porque é uma cultura que surgiu da pura necessidade de sustentar a família – em um determinado momento histórico, elas se viram abandonadas à própria sorte, praticamente isoladas na Ilha de Jeju.

Por que os homens deixaram a ilha? A maioria dos historiadores acredita que, no século 18, os homens ficaram inconformados com as taxas abusivas cobradas pelo rei para a atividade de extrativismo. Os homens também mergulhavam, mas foram abandonando a ilha, enquanto as mulheres ficaram. Possivelmente, não foi a única causa, mas a principal. As mulheres passaram a se dedicar a essa atividade para sustentar as famílias e o que começou como necessidade acabou virando uma cultura. 

Além da prática do mergulho, quais as outras características da cultura das haenyeos? Elas falam uma língua própria, têm uma espiritualidade baseada no xamanismo e iniciaram uma sociedade matriarcal dentro de um país que era totalmente voltado ao domínio masculino e à interferência do Estado. Elas já foram mais de 20 mil mulheres na ilha e hoje são 4500 mergulhadoras remanescentes.

Por que as jovens não continuam com o mergulho? Desde a década de 50, a Coreia do Sul experimentou um desenvolvimento social fantástico. Hoje está entre os países com o maior IDH do mundo. Existem ofertas de outros tipos de trabalho, com melhores salários e mais oportunidades para as gerações jovens. É raríssimo ver uma jovem mergulhando, apesar dos incentivos do governo, que têm programas de preservação da cultura. Existe até uma escola para aprender a ser Haenyeo.

O que o trabalho das Haenyeo tem a ver com sustentabilidade? Elas estão há 400 anos coletando as mesmas coisas, então, aprenderam a usar os recursos do mar com sabedoria, sem exauri-los. Por exemplo, elas nunca incorporaram o uso de cilindros e outros equipamentos de mergulho autônomo, mesmo que isso significasse mais tempo embaixo da água e uma coleta muito maior. Elas sabem que isso representaria uma ameaça para os recursos dos quais elas dependem. Hoje, elas são ameaçadas pela pesca comercial, que vem acabando com os recursos.

Quais os desafios de fotografar a muitos metros de profundidade? Eu comecei usando equipamentos de mergulho, mas percebi que a atividade delas na água é muito dinâmica. Elas sobem, descem e se deslocam em uma velocidade muito grande e o equipamento não te dá essa mobilidade. Sem cilindro, o desafio foi pensar em composição, luz e todos os parâmetros da fotografia em um período de, no máximo, dois minutos, a duração de um mergulho livre. A água fria também foi um obstáculo, cheguei a pegar 15 graus.

Você treina mergulho livre? Eu mergulho desde sempre, sou do mar, cresci em Ilhabela [litoral de São Paulo]. Mesmo assim, foi um trabalho puxado. Elas ficavam entre quatro e cinco horas no mar, direto, com poucos intervalos na superfície. Isso porque elas entram em uma espécie de transe, é uma concentração absoluta.

E por que você optou pelas fotos em preto e branco? Senti que precisava isolar as Haenyeo do resto do ambiente para chegar na essência dessa história. Eu não queria que a beleza do fundo do mar, as cores, as algas e os corais, disputassem a atenção com o rosto dessas senhoras.

Fonte: Revista Trip

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