• 4 de dezembro de 2021 08:42

As incríveis vidas das filhas de Marie Curie, 1ª mulher a vencer o prêmio Nobel

dez 19, 2020

Mas embora ela não tivesse conquistado tal honraria, sem Eve, o mundo não saberia tanto sobre sua mãe, a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel — e a única a realizar o feito em dois campos diferentes da ciência.

Eve se encarregou de escrever a biografia de Marie Curie, que nos últimos anos de vida encontrou nela, sua filha mais nova, uma confidente.

O relacionamento da física e química polonesa com as duas filhas era tão fascinante quanto a vida de cada uma delas.

Irene se tornou uma renomada cientista — e, junto com o marido, conquistou o Prêmio Nobel de Química em 1935.

Eve, que chegou a ser considerada uma das mulheres mais bonitas de Paris nas décadas de 1920 e 1930, foi uma aclamada escritora e ativista dos direitos humanos.

Com cada uma, Marie Curie construiu um vínculo diferente. E se algo se destacava nas duas irmãs, era o quanto eram diferentes uma da outra.

Marie Curie, a mãe

Muito já foi escrito sobre Marie Curie, a extraordinária cientista, mas talvez não tanto sobre Marie Curie, a mãe.

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“É difícil imaginar a vida cotidiana de Marie Curie como mãe. Mas, embora ela fosse implacável em suas atividades científicas, também era dedicada às filhas”, afirma Shelley Emling, autora do livro Marie Curie and Her Daughters: The Private Lives of Science’s First Family (“Marie Curie e suas filhas: a vida privada da primeira família da ciência”, em tradução livre).

Quando Pierre Curie morreu em 1906, Marie sofreu um dos golpes mais devastadores de sua vida.

A “catástrofe” se refletiu em seu diário pessoal: “Acabou tudo, Pierre está dormindo seu último sono embaixo da terra; é o fim de tudo, de tudo, de tudo.”

Marie não só perdeu o marido, seu “melhor amigo” e parceiro de pesquisa científica, como também o pai de suas filhas.

Eles moravam na França. Irene tinha oito anos, e Eve estava perto de completar dois anos quando o físico foi atropelado por uma carruagem puxada por cavalos.

“Marie amava profundamente o marido e estava dominada pela dor, tanto que se recusou a falar sobre Pierre”, diz Emling.

“Acho que a morte dele acabou fortalecendo o vínculo de Marie com as filhas.”

A educação

A dor fez a cientista mergulhar ainda mais fundo em sua pesquisa — e “também a obrigou a confiar em outras pessoas para ajudá-la a cuidar das meninas.

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O pai de Pierre, por exemplo, desempenhou um papel importante na criação das meninas.

E muitas vezes, quando a cientista precisava trabalhar no laboratório, mandava as filhas para a casa de uma tia.

Emling explica que, embora não pudesse passar muito tempo com as meninas — devido a seus experimentos e estudos —, ela estava absolutamente envolvida em sua educação.

“Por exemplo, Marie não estava satisfeita com o nível de qualidade das escolas parisienses da época. Por isso, as meninas foram educadas principalmente em casa. Na verdade, Marie uniu forças com um grupo de acadêmicos ilustres que se revezavam para dar aulas a elas em suas áreas de especialização”, afirma a escritora.

A mãe, é claro, se encarregou de ensinar física e, nesse processo, fez Irene se apaixonar pela ciência. A filha era excelente em matemática.

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Seu exemplo também a cativou.

“Irene observava a mãe de muito perto desde criança, e isso despertou sua admiração”, acrescenta Emling.

“Durante a Primeira Guerra Mundial, aos 17 anos, Irene trabalhou com a mãe na instalação de máquinas de raio-X móveis nos campos de batalha para que os soldados pudessem receber um tratamento médico melhor.”

Irene atuou como enfermeira radiológica em hospitais de campanha.

Irene, a pupila

Após o conflito, Irene, que cursava seu doutorado, se dedicou a trabalhar com a mãe no Instituto de Rádio, que ficou conhecido mais tarde como Instituto Curie.

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“Sua relação com Irene foi talvez a mais forte, pelo menos até seus últimos anos de vida”, avalia Emling.

Irene conduziu estudos pioneiros sobre os raios alfa do polônio, fez suas próprias descobertas e publicou suas próprias pesquisas.

Embora a influência da mãe tenha sido importante, ninguém duvida que sua carreira de sucesso foi mérito próprio.

O fã que se tornou assistente

No Instituto de Rádio, Irene conheceria seu futuro marido.

Em dezembro de 1924, o engenheiro químico Frédéric Joliot havia se candidatado ao cargo de assistente do centro de pesquisas.

Tamanho era o fascínio que o jovem de 24 anos tinha por Marie e Pierre Curie, que pendurou uma foto do célebre casal na parede de seu quarto, conta Emling em seu livro.

Graças a seus estudos sobre radiação, o casal Curie ganhou o Prêmio Nobel de Física de 1903, junto com o cientista francês Henri Becquerel.

Em 1911, Marie ganharia novamente o Nobel, desta vez de Química.

O sonho de trabalhar lado a lado com sua heroína parecia cada vez mais próximo. No entanto, Marie tinha outros planos para o jovem aprendiz.

“No primeiro dia de 1925, Marie colocou Frédéric sob a supervisão de sua filha Irene”, que “só tinha uma coisa em mente quando estava no instituto: trabalhar”, escreveu a autora.

“E, sem saber, deu a Frédéric a pior tarefa possível para alguém com sua experiência limitada: estudar os aspectos químicos do polônio e outros elementos radioativos, uma área sobre a qual ele não sabia quase nada.”

“No início, ele deve ter se sentido ainda mais desmoralizado. Mas decidiu que precisava dominar a tarefa se quisesse continuar no instituto e conseguiu, superando inclusive as expectativas de Irene.”

Joliot se dedicou tanto à missão dada pela filha de sua ídola que chegou a fazer descobertas que ajudaram a melhorar a maneira como os experimentos eram realizados no centro de pesquisa.

Ele se tornou assistente de Marie Curie e, mais tarde, um renomado cientista e professor universitário.

O casal Joliot

Emling diz em seu livro que talvez Joliot visse Irene como muitas pessoas no instituto: “fria e distante”. Para alguns, ela era inclusive um pouco hostil, mas possivelmente devido à sua capacidade de se perder em pensamentos científicos, mais do que qualquer outra coisa.

“Ela era muito distante, e alguns achavam que ela era muito parecida com a mãe em termos de temperamento forte. Mas não importava o que achavam pessoalmente a respeito dela, ninguém poderia desconsiderar sua incrível inteligência e talento”, afirma a autora.

Independentemente das primeiras percepções, os dois se apaixonaram, se casaram em 1926 e juntaram seus sobrenomes.

A breve biografia de Irene Joliot-Curie publicada no site do Prêmio Nobel faz juz a essa união, assim como ao talento da filha mais velha dos Curie:

“Sozinha ou em colaboração com o marido, ela fez um trabalho importante sobre a radioatividade natural e artificial, a transmutação de elementos e a física nuclear; compartilhou com ele o Prêmio Nobel de Química de 1935, em reconhecimento à síntese que fizeram de novos elementos radioativos.”

“Em 1938, sua pesquisa sobre a ação dos nêutrons sobre elementos pesados ​​foi um passo importante na descoberta da fissão do urânio (…) Ela se tornou professora na Faculdade de Ciências de Paris em 1937, e depois diretora do Instituto de Rádio em 1946.”

Ao conceder a homenagem ao casal, o Comitê do Prêmio Nobel reconheceu: “Os resultados de suas pesquisas são de extrema importância para a ciência pura, mas, além disso, fisiologistas, médicos e toda a humanidade que sofre esperam se beneficiar de suas descobertas, (que são) remédios de valor inestimável.”

Irene também participou da construção da primeira pilha atômica francesa em 1948.

Ela foi uma pacifista e, como Marie, tinha fortes convicções.

“Quando Hitler invadiu a Polônia, Irene e o marido quebraram sua velha regra de sempre compartilhar suas descobertas e nunca patenteá-las por seu desejo de fazer da ciência um campo completamente aberto. Mas quando Hitler tomou o poder, eles esconderam sua pesquisa de fissão (nuclear) em um cofre durante a guerra para evitar que caísse nas mãos dos alemães”, diz Emling.

Eve, a aventureira

Mas, embora uma de suas paixões fosse a música, ele decidiu se dedicar à escrita.

“Ela virou crítica de música e cinema de várias revistas. Já em 1932, havia traduzido e adaptado a obra americana Spread Eagle, de George S. Brooks e Walter B. Lister, para uma produção teatral na França”, conta Emling.

“Sem dúvida, Irene foi notável como cientista. Mas Eve também foi incrível, já que fez sucesso em uma área fora daquela em que foi criada. E no final, talvez sua vida tenha sido a mais aventureira de todas (as Curie).”

Após a ocupação nazista da França em 1940, Eve se engajou ativamente na causa “França Livre”.

Ela se tornou correspondente de guerra e cobriu várias frentes de batalha durante a Segunda Guerra Mundial. Esteve no Irã, no Iraque, na Índia, na China, na antiga Birmânia (atual Mianmar) e no norte da África.

Destas experiências nasceu seu livro Jornada Entre Guerreiros, obra que dedicou à mãe.

No início da década de 1950, se tornou consultora especial da secretaria-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

A biógrafa

Embora Eve não compartilhasse do interesse da mãe pela ciência, “ela se tornou muito próxima dela durante seu último ano de vida”, lembra Emling.

“Ela foi sua cuidadora e confidente enquanto Irene estava ocupada com suas pesquisas (…) No fim de sua vida, Marie passou a ter mais confiança em Eve do que em Irene”, reflete a autora.

Após a morte da mãe em 1934, Eve aceitou aos 29 anos a proposta de editores americanos e se dedicou a escrever a biografia da cientista: Madame Curie, publicada em 1937.

“O livro se tornou um grande sucesso, e Eve ganhou vários prêmios literários de prestígio”, observa Emling.

Em seu obituário publicado pelo jornal americano The New York Times, o “retrato admirável” que fez da mãe foi destacado.

Ela abordou “desde seu nascimento e infância na Polônia, passando por sua educação na França e a descoberta, junto com o marido, dos elementos radioativos rádio e polônio”, escreveu o jornal.

“O livro se tornou rapidamente um best-seller e, em 1943, um filme de Hollywood.”

No entanto, alguns críticos questionaram que a obra não incluía “o caso apaixonado” que Marie Curie teve com um homem casado nos anos seguintes à morte de Pierre.

Mas, independentemente dessa omissão, “o livro definitivamente colocou Eve sob os holofotes e a transformou em uma estrela por si só”, diz Emling.

‘Não odeio a ciência’

Quando Eve viajou para os EUA para fazer uma turnê, “seu rosto sorridente apareceu na capa da revista Time em fevereiro de 1940, e ela foi aclamada como celebridade”.

Além de dar palestras e se reunir com algumas das figuras públicas mais importantes da época, ela foi a atração da imprensa.

Quando questionada por repórteres sobre sua trajetória profissional, ela respondeu: “Não odeio a ciência, simplesmente me apavora”.

De acordo com Emling, Eve tentou durante a viagem convencer cidadãos e políticos americanos a se envolverem na guerra que assolava a Europa.

‘A primeira-dama do Unicef’

A filha mais nova dos Curie se casou com Henry Labouisse, um diplomata americano que entre 1965 e 1979 foi diretor-executivo do Unicef.

Foi ele quem recebeu o Prêmio Nobel da Paz, concedido à organização em 1965. Sua esposa o acompanhou.

Eve se tornou uma ativista de direitos humanos e visitou muitos dos mais de 100 países em desenvolvimento que recebiam assistência do Unicef na época.

A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para a infância lembra que Eve era conhecida como “a primeira-dama do Unicef”.

E a descreve como “uma profissional talentosa que usou suas muitas habilidades para promover a paz e o desenvolvimento. Enquanto seu marido dirigia o Unicef, ela desempenhava um papel muito ativo na organização, viajando com ele para defender as crianças e oferecer apoio e incentivo à equipe do Unicef ​​em lugares remotos e difíceis”.

Duas irmãs, dois mundos

Emling diz que Irene era muito parecida com a mãe. Ela gostava de levar uma vida simples, era muito estudiosa, quieta, reservada e preferia ficar em casa a sair para socializar.

Eve, ao contrário, “desfrutou de um amplo círculo de amizades, assim como do teatro e das festas”.

Ela era alta, magra, com pele clara e cabelos escuros.

“Graças à sua figura glamourosa, ela foi considerada por muitos como uma das mulheres mais bonitas de Paris nas décadas de 1920 e 1930.”

No que se refere ao pensamento político, as duas também eram diferentes, explica a autora.

“À medida que cresciam, Irene se inclinava cada vez mais para a esquerda politicamente, enquanto Eve sempre se considerou moderada com uma verdadeira afinidade com os Estados Unidos.”

“Eve muitas vezes se referia a si mesma como a ovelha negra da família, uma vez que o caminho que havia seguido era muito diferente daquele escolhido por seus familiares mais próximos”, diz Emling.

Irene morreu em 1956 aos 58 anos, após sofrer de leucemia, que acredita-se ter sido causada pela exposição prolongada a material radioativo.

Sua mãe faleceu da mesma causa.

Eve morreu aos 102 anos em 2007.

Embora não tivesse filhos, ela desenvolveu um relacionamento muito próximo com sua enteada, Anne L. Peretz. Ela disse, segundo o jornal The New York Times, que no fim de sua vida, Eve “sentia uma enorme culpa por ser a única entre as mulheres de sua família a ter escapado de uma vida de radiação e suas consequências”.

Fonte: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/12/19/as-incriveis-vidas-das-filhas-de-marie-curie-1a-mulher-a-vencer-o-premio-nobel.ghtml

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