Conheça a brasileira que já uniu mais de mil famílias por meio das redes sociais

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Em uma mesa com dois computadores, celular e diversas anotações em papéis, a comerciante Daniele Vianna, de 42 anos, passa grande parte de seus dias.

Na quitinete em que mora, nos fundos da casa dos pais, no Rio de Janeiro (RJ), ela acompanha atenta a cada mensagem que recebe no WhatsApp ou em seu perfil no Facebook. Por trás de toda a dedicação há um trabalho voluntário no qual ela se tornou referência nas redes: a busca por pessoas.

Daniele criou o grupo de Facebook “Busco minha família” há cinco anos, para ajudar a localizar parentes de pessoas que não veem os familiares há anos. Ela afirma que a iniciativa é puramente voluntária. “Eu sempre quis fazer alguma atividade para ajudar outras pessoas e acabei me descobrindo”, revela a carioca, que é a principal administradora do grupo, hoje com mais de 20 mil membros.

Ela diz que já solucionou mais de 1,1 mil histórias de pessoas que vivem em diversas regiões do Brasil. Entre os casos, há pessoas que procuram irmãos que foram separados há décadas, filhos que procuram os pais biológicos e mães que buscam pelos filhos desaparecidos ou que deram para a adoção anos atrás.

A história da carioca remete ao detetive britânico “Sherlock Holmes”, clássico personagem da literatura e do cinema. “Sempre quis fazer um curso de detetive, mas até hoje não tive condições”, explica. No passado, ela sonhava em ser policial civil, para trabalhar com investigações. “Mas desisti, quando percebi que não conseguiria ver pessoas mortas na minha frente”, diz.

No dia em que conversou com a reportagem, Daniele aguardava por informações para solucionar uma história. “Hoje eu estou em uma ansiedade que só. Estou esperando a resposta de uma mulher sobre um caso que estou cuidando há alguns dias. O filho está procurando a mãe biológica, eu localizei a mulher que pode ser a mãe dele, mas ela ainda não me respondeu”, diz Daniele à BBC News Brasil. Segundo ela, a espera por respostas de casos faz parte de sua rotina diária. “Só sossego quando consigo fechar a história ou quando entendo que não vou conseguir chegar a uma resposta”, explica.

A iniciativa de Daniele é exaltada por aqueles que participam do grupo dela, principalmente as pessoas que receberam ajuda da carioca para localizar um parente ou amigo.

© Arquivo pessoal Rayssa (sentada no alto do sofá) junto com a mãe (de preto) e os parentes, que foram encontrados por Daniele

“Acho o projeto dela incrível. Enxergo que essa parte é esquecida pelas autoridades e ela cumpre esse papel de ajudar pessoas que querem encontrar parentes que não veem há anos. Penso que não existe um serviço gratuito que desvende casos tão importantes para os familiares como os que a Daniele ajuda”, diz a universitária Rayssa Antualpa, de 24 anos. A jovem é uma das responsáveis por ajudar Daniele no grupo — uma outra mulher também auxilia a comerciante na administração do “Busco minha família”.

A busca por pessoas

Daniele relata que viu no exemplo do pai, que segundo ela sempre ajudou outras pessoas, o motivo para procurar algum trabalho voluntário. Ela, que tem cinco gatos em casa, revela que cogitou atuar em resgates de animais. “Mas pensei que não daria certo, porque minha casa é pequena e eu iria querer trazer todos os animais pra cá”, diz.

A primeira vez em que se viu em meio à busca por alguém foi quando encontrou documentos em uma pizzaria em que ela trabalhava, em Macaé, no Rio de Janeiro. “Nesses documentos havia o nome do rapaz, mas ninguém o conhecia. Então, o procurei no Facebook, o encontrei e mandei uma mensagem. Ele ficou muito feliz quando devolvi as coisas dele”, relata.

“A partir de então, percebi que poderia ser fácil encontrar pessoas”, diz Daniele. Apaixonada por séries de investigação criminal, ela decidiu participar de grupos que ajudassem a encontrar pessoas desaparecidas. “Mas esses grupos apenas compartilhavam as imagens das pessoas que estavam sumidas, não faziam exatamente um tipo de pesquisa para tentar localizá-las”, pontua.

A comerciante, então, resolveu criar o próprio grupo, em outubro de 2015. A iniciativa, que era para tomar apenas poucas horas do dia dela, logo passou a ser a principal atividade da carioca. Hoje, ela afirma se dedicar de 12 a 14 horas por dia para buscar pessoas.

“Depois que eu acordo, a primeira coisa que faço é ligar o computador. A partir de então, vou me atualizando sobre os casos que estou cuidando”, detalha.

© Arquivo pessoal Joana Arcelina De Freitas e a filha, Rayssa: elas encontraram parentes distantes após busca de Daniele

A carioca conta que nunca recebeu dinheiro para buscar pelas pessoas. “É tudo voluntário. Faço isso porque me faz muito bem poder ajudar as pessoas”, declara. Ela relata que se mantém financeiramente por meio de vendas de produtos de um sex shop virtual, criado por ela, e alguns bicos como vendedora ambulante. A comerciante também tem a ajuda dos pais, que pagam contas dela, como de água e luz, pois estão inclusas nas despesas da casa inteira — além de Daniele, uma tia também mora no quintal da casa dos pais da comerciante.

Outra fonte de renda de Daniele são as rifas que faz no grupo para tentar conseguir dinheiro para arcar com gastos que têm com o projeto, como a conta de telefone e a mensalidade do programa que usa para buscar as pessoas. “Mas é muito difícil conseguir vender todos os números da rifa. Na mais recente, demorei quatro meses para vender todos os números. Então não é algo que posso contar sempre”, pontua.

A pesquisa pelos desaparecidos

Para as buscas, Daniele tem uma planilha com mais de 3 mil nomes, na qual constam os casos que ela já solucionou, os que estão em fase de solução e os que ela não tem previsão para resolver. No documento, ela reúne todas as informações que possui sobre cada história. “É uma forma de me organizar e saber o quanto falta para solucionar aqueles casos dos quais eu tenho informações básicas, como o nome completo e cidade da pessoa procurada”, conta.

Ela ressalta que na planilha há centenas de casos que não tem expectativa de solucionar, pois não há informações suficientes para as buscas. “Esses casos impossíveis acontecem quando não há nenhuma informação, nem mesmo primeiro nome ou cidade da pessoa procurada”, relata. Em casos assim, ela diz que salva na planilha informações sobre a pessoa que a procurou para a busca. “Deixo tudo guardado, porque pode ser que um dia apareça alguém procurando uma pessoa com características semelhantes. Isso é muito mais difícil, mas não é algo impossível”, diz.

Diariamente, ela recebe dezenas de novas mensagens de pessoas que querem a ajuda dela para encontrar alguém. “Respondo e tento ajudar a todos. Mas como os pedidos hoje são muitos, vou ajudando aos poucos, na medida do possível, porque gosto de me dedicar a cada uma das histórias.”

Quando tem informações como nomes e cidades, ela conta que há casos que podem demorar menos de uma hora para que a pessoa seja localizada. “São os casos mais fáceis, porque jogo as informações no programa e depois avalio se os dados da pessoa encontrada batem com as informações que tenho dela, para ver se é realmente aquela que está sendo procurada”, diz. Há outros casos em que ela demora semanas ou até meses para chegar a uma resposta. “Tudo depende do que eu encontro e do modo como terei de checar essas informações”, pontua.

A comerciante usa um programa de uso restrito para buscar pelas pessoas. Ela paga uma mensalidade para conseguir acesso a ele. Daniele pontua que nele há um banco de dados que reúne endereços, telefones e nomes de diversas regiões brasileiras. “Acredito que seja o mesmo programa usado por detetives. É uma coisa muito séria e não posso divulgar, até porque pode haver pessoas com intenções ruins que possam querer usá-lo também”, explica.

Em muitos casos, ela precisa ligar para cartórios para procurar informações concretas. “Em algumas situações, as pessoas dos cartórios entendem que é um trabalho voluntário e me ajudam. Em outras situações, cobram por isso. Quando cobram, eu acabo passando para a pessoa que está interessada na busca ir atrás da informação diretamente com o cartório, para que ela decida se quer ou não pagar por aquilo”, diz.

Há situações em que ela não consegue todas as informações necessárias, mas descobre um possível endereço e precisa confirmar se a pessoa mora naquele local. “Peço para que algum membro do grupo vá até a casa que suspeito que a pessoa procurada possa morar. Sempre aparece alguém, que mora perto, e se dispõe a ajudar. Como é um trabalho voluntário, sempre deixo claro que não tenho dinheiro para ajudar com a condução ao local, mas ainda assim as pessoas se dispõem a ajudar.”

Daniele impõe uma condição para as buscas: não ajuda aqueles que querem encontrar alguém para cobrar dívidas. “Se eu descubro que é para cobranças, eu não faço. Esse não é o objetivo do grupo. O que a gente quer mesmo é que as pessoas se reencontrem por amor.”

‘Encontrei os parentes da minha mãe’

Entre os casos solucionados está o da família de Rayssa, que ajuda Daniele no grupo. A mãe dela fora abandonada aos seis anos e não conhecia ninguém da família. “Sabíamos que ela tinha quatro irmãos em algum lugar do mundo. Quando conheci a Daniele, passei as informações que tinha sobre eles e ela conseguiu localizá-los”, relata a estudante.

Segundo Rayssa, Daniele encontrou todos os parentes da mãe. “Além dos quatro irmãos, descobrimos que minha avó tinha mais um filho. Isso foi muito importante para a minha mãe e para mim, porque nós duas nos sentíamos muito sozinhas. Depois que localizamos nossos parentes, marcamos um reencontro, foi um momento muito feliz e não perdemos mais contato”, diz a jovem. Depois da ajuda, ela passou a colaborar com Daniele como voluntária no grupo.

Outro caso que também foi ajudado por Daniele é o da professora de educação infantil Carla Nascimento, de 42 anos. O marido dela perdeu o pai aos cinco anos. “Depois da morte do pai, ele foi criado pela mãe, no Ceará”, conta Carla. “Ela não tinha referência sobre os parentes do pai dele. Durante toda a vida, meu marido quis respostas e sempre se sentiu pela metade. Certa vez, vi uma publicação sobre o grupo da Daniele e decidi procurá-la, sem que ele soubesse”, diz.

Carla entrou em contato com Daniele em meados do ano passado e passou o nome do pai do marido, que era a única informação que tinha sobre a família do homem. “Eu achava que ela não fosse encontrar nenhum parente dele, mas em três dias soube o paradeiro deles”, diz. Carla relata que contou a novidade ao marido logo que recebeu a resposta de Daniele. “Queria fazer surpresa. Quando eu contei, meu marido ficou completamente emocionado. Ele logo entrou em contato com a família e descobriu tios e muitos primos. Depois de mais de trinta anos procurando, ele finalmente descobriu a sua origem e agora se sente completo.”

O marido de Carla e os parentes que ele não conhecia devem se encontrar ainda neste ano. “Ele mora no Rio de Janeiro e os parentes vivem no Ceará. Todos estão ansiosos para se encontrar e se falam quase todos os dias. O encontro deles será, com certeza, um momento muito emocionante”, diz a professora.

Para Daniele, a maior recompensa de sua dedicação às buscas é a felicidade daqueles que reencontram alguém que procuravam por anos. “Eu realmente amo o que faço. Eu não via propósito em minha vida antes, porque sempre fui muito perdida e nunca soube o que fazer da vida. Quando comecei a fazer esse trabalho, parece que surgiu uma luz na minha vida”, diz.

“Depois que comecei a ajudar as pessoas, nunca mais tive dúvidas sobre o que quero para a minha vida. Não vejo mais como um trabalho ou algo assim, é uma coisa que já se tornou parte de mim. Penso que tudo o que a gente faz pelo outro, acaba recebendo de volta, de alguma forma. Por isso, não tenho dúvidas de que a minha vida melhorou muito nesses últimos cinco anos”, afirma.

Fonte: BBC

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