Ela viaja sozinha e enxerga o mundo pelos olhos de sua cadela-guia

Nove países, dez estados e muitas histórias para contar. Quem vê Mellina Hernandes, de 35 anos, explorando o mundo com sua cachorra, Hilary, não imagina que nem sempre foi assim.

Ao ser diagnosticada com uma doença que provoca degeneração na retina, a paulista viveu momentos de frustração e medo ao imaginar que seria quase impossível fazer qualquer tarefa sozinha.

Porém, em relação às viagens, a sensação foi diferente e foram nelas que Mellina encontrou uma forma de encarar os seus próprios preconceitos. Ao UOL Viagem, ela conta como foi possível superar suas limitações e explorar o mundo sem enxergar.

“A minha primeira viagem sozinha foi para a Europa. Uma amiga minha estava se mudando para Paris e decidi que aquela seria uma grande oportunidade para explorar outro continente. Na época, eu estava com 20% de visão, usava bengala e comecei a aceitar, de fato, que era deficiente visual. Fiquei com um pouco de medo, mas me motivei e pensei: ‘Quando terei uma oportunidade com baixo custo’? Coloquei no roteiro França, Espanha, Grécia e fui.

Chegando lá, fiz alguns passeios acompanhada, mas minha amiga não podia estar o tempo todo comigo, já que trabalhava. A princípio foi tudo tranquilo, mas depois de um tempo comecei a me perder um pouco no metrô, pedia informação para poste, árvore e vento – percebia que tudo ficava em silêncio e depois me tocava que estava falando totalmente sozinha. Muitas vezes caía na risada comigo mesma.

Depois de alguns dias, chegou a hora de ir para Madri. Decidi que iria de ônibus, então, era só chegar ao ponto de saída. Minha amiga havia me explicado o caminho e até feito comigo, já que eu iria sozinha no outro dia. Pensei: faço tranquilo. No dia seguinte, ainda estava noite, não tinha uma pessoa na rua, comecei a andar, andar e não achava nada do ônibus.

Fui caminhando ali e peguei um caminho diferente, que tinha uma bifurcação, comecei a me perder e quase fui atropelada. De repente apareceu um francês que me ofereceu carona. Eu não falava francês e nem ele inglês e, por sinais, nos ajudamos e ele me deixou no ponto do ônibus. Ao chegar lá, o ônibus já estava saindo e comecei a correr na rua com a bengala e gritar: espera, espera. Todo mundo ficou olhando, mas graças a Deus consegui pegá-lo e chegar em Madri.

Minha cachorra virou minha maior companheira de viagem.

Em 2014, a doença se agravou, peguei catarata e fiquei com a visão bem debilitada. Entrei na fila para ter um cão-guia, recebi a cachorra e o processo de adaptação foi um pouco difícil no começo. Mas, aos poucos, fomos nos acostumando uma com a outra e ela me deu muita autonomia.

Depois desta fase, pensei em fazermos uma viagem juntas. Comprei passagem, fechei hotel e fui para Curitiba com ela. Chegando lá, eu fiquei um pouco receosa, pensando que talvez ela não acharia os locais. Fiquei no quarto por um bom período, quase até o meio da tarde, mas pensei que tinha que sair de lá. Um funcionário me ajudou a chegar em um mercado local e comecei a me sentir mais acostumada com os locais e atrações. Cheguei a falar para mim mesma que, no pior das hipóteses, a Hilary acharia o caminho de volta.

No outro dia resolvi fazer um passeio de trem, que era algo bem turístico, e o maquinista foi bem atencioso e minha cachorra foi o centro das atrações. Por “sorte”, o dia estava nublado e o guia foi descrevendo bem as paisagens. Eu sentei em um banco, ele ia descrevendo todo o trajeto, e falava a direita tem isso, a esquerda aquilo. No fim, me dei conta que eu estava sentada de costas, ou seja, a minha direita era minha esquerda e as fotos ficaram péssimas.Essa primeira experiência serviu de inspiração, fiz amigos, me diverti e, desde então, não parei mais de viajar com ela ao meu lado. Decidi que faria uma viagem internacional, já que é lei e cães guias podem viajar ao lado dos donos nos aviões.

Comprei uma passagem para Buenos Aires, na Argentina, e resolvi que ia ficar alguns dias, mas a minha experiência foi péssima. Em muitos lugares, principalmente em mercados e restaurantes, não deixavam a Hilary entrar e eu não aproveitei bem a cidade.

Algumas pessoas acham que é bobagem, mas ela me guia em tudo e facilita quase que o processo todo em viagens. Infelizmente lá e em outros países não há essa preocupação em relação à acessibilidade e viajantes.

Sinto mais o lugar e “enxergo” de forma diferente

Ao longo de todo meu processo de aceitação, eu acho que aprendi muito com as pessoas e ensinei também. Hoje, com apenas 3% de visão, consegui tirar uma lição de todo meu problema e, em cada viagem que faço, me supero a cada dia.

Muitas pessoas me perguntam como eu consigo viajar e apreciar as paisagens. Acho que a limitação na visão me permitiu sentir mais cada lugar e desenvolver uma habilidade energética muito boa. Por mais que eu não enxergue, isso não se torna um problema.

De dia, por exemplo, é muito ruim para eu enxergar, a claridade me incomoda um pouco. Mas de noite tenho uma percepção melhor das coisas e espaço. Além disso, consigo perceber quando está nublado, com sol, e vou pela reciprocidade das pessoas, de como me tratam e como tratam a Hilary. Meus pais mesmo amaram Buenos Aires, eu não gostei e acho que foi justamente pelo jeito que trataram minha cadela-guia e com a pouca ajuda que tive em muitos passeios.

Parei de julgar o livro pela capa

Eu cansei de pedir informação para poste e para o vento, como falei acima. Mas desenvolvi um jeito mais humano de encarar a vida e as pessoas.

Uma vez lembro que estava em São Paulo andando e precisava ir até um local fazer exame. Ninguém olhava para mim e a Hilary estava meio perdida. Do nada um morador de rua apareceu, perguntou para onde eu ia e me ajudou até lá. Ao chegar no local, os funcionários me falaram que ficaram com medo porque eu estava acompanhada por ele e eu falei: Ah é mesmo? Era morador de rua? Não tinha como ver, mas ele foi super solícito e realmente me ajudou, o que hoje em dia é muito difícil na minha rotina.

Em algumas viagens, já cansei de receber dinheiro a menos, pedir para alguém contar e falarem que tinha menos do que imaginei. Então, a aparência física é algo que realmente é indiferente para mim. O mais importante é como a pessoa vai me ajudar.

Agora, meus próximos planos são uma viagem com a Hilary para Nova York. Vamos ficar alguns dias e tenho certeza que será incrível”. É possível acompanhar as aventuras das duas pelo mundo através do Instagram @4ppelomundo.

Fonte: UOL

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