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Qual o papel do pai na adaptação escolar das crianças?

fev 12, 2023 #brasil
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Eu e Laura, minha filha de três anos, passamos duas semanas do mês de janeiro em adaptação escolar. Em partes, sei que sou um homem privilegiado por poder acompanhar minha filha neste processo, ainda que isso inclua passar por alguns perrengues da vida real: atrasar alguns prazos (por isso que, por exemplo, você está lendo esse texto fora do período em que ele deveria ter sido postado); escrever à noite; e produzir, profissionalmente, em horários alternativos.

Paternidade e educação: a participação dos pais na adaptação escolar dos filhos

Paternidades, assim como as maternidades, exigem de nós alguns sacrifícios. Mas, também, nos entrega muitos prazeres e alegrias. Laura está entrando no Maternal II e, além disso, passará o outro turno na escola para desfrutar das atividades complementares. Por ser o primeiro ano dela naquele espaço, precisamos fazer uma adaptação cuidadosa, onde não somente a Laura se adaptasse à escola, mas a escola também a ela.

Assim foi feito! Eu, enquanto um pai negro de uma menina negra, estou sempre interessado em saber qual o projeto antirracista da escola em que minha filha estudará. Isso é importante, pai! E essa pergunta não tem que ser somente do pai negro, mas do pai branco, também! A formação dos nossos filhos e das nossas filhas está sendo forjada desde muito pequenos e a escola é um espaço privilegiado para isso. E, sim, as unidades de ensino precisam ter projetos antirracistas no seu currículo escolar!

E qual o meu papel na adaptação escolar da minha filha?

Eu, primeiro, preciso salientar que fiquei muito surpreso e feliz, pois a escola da Laura não ficou perdida com a minha presença ali! Isso é tão revolucionário! Já que, no geral, as escolas não sabem o que fazer com a figura paterna. Em muitas situações elas tendem a “usar” o pai como “mensageiro de recados” para a mãe, em relação aos cuidados com a criança.

Outra coisa importante é o fato da escola dirigir-se ao pai e à mãe como “amigo responsável” e não como “paizinho” ou “mãezinha”. Eu não sou “paizinho”! Eu sou pai! Esse diminutivo não soa como elemento pedagógico. E não, eu não estou sendo ranzinza!
Voltando à pergunta central deste bloco, quero abaixo dar algumas dicas sobre o papel do pai neste processo de adaptação escolar dos filhos.

1. Seja paciente

Este é um momento muito novo na vida do seu pequeno ou da sua pequena. Assim, não adianta querer antecipar as coisas, forçar ele ou ela a ficar sozinho com pessoas desconhecidas (ainda que as educadoras e os educadores sejam as pessoas mais gentis e afetuosas, eles são estranhos para a sua criança).

2. Respeite o tempo do seu filho ou da sua filha

Cada criança tem seu tempo, pai! Não compare a sua criança com outra criança! Nós não nos sentimos bem em sermos comparados, assim também acontece com as crianças. Sua filha ou seu filho ficará bem e sem chorar, quando sentir-se seguro. E o tempo da segurança dela ou dele é exclusivo.

3. É preciso ter disposição

Pai, vá aberto para a adaptação. Vá aberto às brincadeiras; às atividades que os educadores proporão; a divertir-se com a sua criança! Demonstrar-se rígido não ajuda.

4. Seja flexível

É preciso entender junto aos educadores o momento de ir, paulatinamente, se afastando para que a criança se vincule aos profissionais da escola.

5. Esteja atento aos sinais

É importante atentar-se a alguns sinais silenciosos, caso a sua criança ainda não verbalize, que a criança emite para entender como ela está se relacionando com aquele espaço escolar. Se ao chegar próximo à escola ela apresenta aspectos de alegria, se ao entrar na escola, ela se sente confortável e animada, além de outros códigos que você tenha com a sua pequena ou o seu pequeno. Pai, neste processo de vinculação, são sinais importantes.

6. Esteja em alerta

Quando a criança começar a ficar na escola sem a sua presença, fique atento ao contato da escola. Envie mensagens também para saber como ela está. Não se sinta constrangido em fazê-lo.

7. Diálogo com a criança

Converse com a criança sobre o dia dela na escola! Pergunte o que ela aprendeu naquele dia. Esteja ciente da atividade daquele dia para conversar com ela. Saiba os nomes dos amigos e amigas dela para falar um pouco sobre eles. Esse também é o momento de conversar sobre as diferenças raciais e de gênero, de forma a que ela entenda, é claro.

Observação: Pai, é importante estar atento aos recados que a escola envia sobre a sua criança. Se for um aplicativo, baixe-o no seu telefone. Se for um grupo de WhatsApp, participe dele!

Educadores e educadoras que lêem esta nossa coluna, aqui eu gostaria de lhes pedir um grande favor: não façam “grupos de mães” em aplicativos como WhatsApp. Se forem criar grupos, façam “grupo de responsáveis” e incluam os pais! Proponham as inclusões dos pais nestes grupos. O cuidado da criança é uma responsabilidade do pai e da mãe!

Pai, se a escola do seu filho ou da sua filha não estiver atenta a isso, proponha, provoque e participe! É necessário! A equidade no cuidado contribui para o melhor desenvolvimento da criança.

Por fim, pai, esse momento não é importante só para a criança, mas para toda a família! Participe dele com entusiasmo, afeto e responsabilidade, contribuindo ainda mais para a beleza deste processo na vida do seu pequeno ou da sua pequena.

Um abraço e eu vou correr aqui pra seguir colocando em dia as tarefas que ficaram atrasadas, mas muito feliz, pois a Laura está muito feliz na escola nova dela!

Luciano Ramos

Historiador de formação, com especialização em desenvolvimento infantil pelo núcleo latino-americano da Universidade de Harvard, especialista em paternidades e masculinidades, consultor em projetos que incentivam o empoderamento de crianças, adolescentes e jovens negros, além de práticas antirracistas.

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