Novo medicamento promete ajudar cães com fobia a barulho

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Novo medicamento promete ajudar cães com fobia a barulho
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É inteiramente possível que ninguém tema mais as chuvas do que os cães.

De repente, o calor opressivo traz trovões retumbantes, quedas de raios e chuva batendo na vidraça. Todo aquele barulho deixa os cachorros malucos.

E quando há festas e seus muitos fogos? Terror.

Segundo estimativas, pelo menos 40% dos cães vivenciam ansiedade provocada pelo ruído, mais pronunciada durante o verão. Veterinários contam histórias de cães que se abrigam em esconderijos tão apertados que ficam entalados, que roem maçanetas de porta, que se jogam contra janelas ou correm em meio ao trânsito – na tentativa desesperada de fugir aos choques inexplicáveis de barulho e luz faiscante.

Ernie, um braco alemão de pelo duro, ficava tão apavorado com as trovoadas que pulava as cercas da fazenda onde mora em Maryland e corria quilômetros em linha reta.

“É muito sério. É um verdadeiro distúrbio de pânico com uma resposta de fuga completa”, afirma a Dra. Melissa Bain, professora adjunta de comportamento animal da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade da Califórnia, campus de Davis.

Ao longo dos anos, surgiram vários remédios para ansiedade ao barulho: fórmulas homeopáticas, feromônio calmante, CDs de trovoadas misturadas a Beethoven, roupas que limitam os movimentos e até mesmo Prozac e Valium. Mas neste mês, a primeira medicação aprovada pela FDA, agência norte-americana reguladora de alimentos e medicamentos, para aversão canina ao barulho (termo que engloba do desconforto médio à fobia) chegou ao mercado. A droga, Sileo, inibe a norepinefrina, composto químico do cérebro associado à ansiedade e à reação ao medo.

Nos próximos dias, a enxurrada anual de telefonemas aos veterinários terá início: “Estão soltando fogos de artifício, meu cachorro está ficando louco e eu preciso de alguma coisa para dar um jeito nisso, e tem de ser agora!”, exemplifica Melissa.

Alguns veterinários receitam sedativos fortes, mas ainda que a crise imediata seja evitada, a fobia existente continua sem ser tratada.

Assustar-se com barulho alto é normal, para cachorros e, também, humanos. Só que esses cachorros não conseguem se acalmar. Mesmo que a maioria das reações não seja tão extrema quanto à do cachorro que arranca as unhas raspando freneticamente a porta, muitos cães vão se agachar, andar a passos lentos e defecar dentro de casa.

Gatos também sofrem

Os gatos também podem ter aversão a barulhos, embora os relatos sejam menos comuns. Especialistas em comportamento animal dizem que os bichanos são mais independentes e contidos do que os cachorros, então quando eles se escondem debaixo da cama durante as tempestades, os donos podem não ver tal reação como incomum.

Veterinários especializados em comportamento dizem que, à medida que envelhecem, os cães com aversão ao ruído podem associar uma sensação a outra: tremores causados pela fobia à tempestade podem ser desencadeados apenas por nuvens escuras.

E os temporais são coisas complicadas. “Existem mudanças de pressão significativas, ventos frenéticos, descargas elétricas gigantes, sons fortes; os cães podem ouvir acima e abaixo da nossa faixa auditiva”, diz o Dr. Peter H. Eeg, veterinário de Poolesville, Maryland, que relata resultados do Sileo à Zoetis, empresa que distribui a medicação.

Wrigley, uma golden retriever de dez anos de Naperville, Illinois, começou a tremer três horas antes de uma tempestade recente, conta Allene Anderson, que cuida de cães abandonados.

“Ela estava desesperada para que eu a segurasse no colo. Eu me deitei no chão com ela, e ela me arranhou. A cadela não conseguia se grudar em mim o bastante”, relata Allene. Depois que o temporal passou, Wrigley tremeu durante horas.

“Se os donos não entendem o que está acontecendo na cabeça do cachorro, eles gritam e os jogam no porão, o que só piora a coisa”, ela acrescenta.

Inúmeros outros barulhos perturbam os cachorros: britadeiras, cortadores de grama, moedores de café. Um veterinário afirma que mesmo roupas criadas para proteger os cães num invólucro seguro podem irritar alguns animais com o som do velcro sendo aberto. Os gritos agudos de uma criança pequena assustaram Winnie, buldogue de Indiana; sua proprietária, a Dra. Sara L. Bennett, veterinária comportamental, a ensinou a relaxar com respiração de ioga.

Durante um temporal dois anos atrás, Rebecca Roach foi acordada às 3h da madrugada por Stella, cadela pastora australiana miniatura de seis anos, subindo em seu peito, arquejando, ganindo e tremendo.

“Meu instinto foi acalmá-la, então eu a segurei até o fim da tempestade”, conta Rebecca, que mora em Boyds, Maryland.

Mostrar segurança

Os especialistas em comportamento, porém, discordam se os donos devem ou não reconfortar os animais. O Dr. Daniel S. Mills, veterinário da Universidade de Lincoln, Inglaterra, especialista em aversão canina a barulho, sugere que os donos “mostrem que viram o cachorro, mas sem fazer muito fuzuê. A seguir, eles devem mostrar que o ambiente é seguro e não compatível com a ameaça, brincando e vendo se o bicho quer participar. Mas sem forçar. Deixe que ele escolha”.

Outros especialistas afirmam que acalmar um animal assustado, educado a buscar segurança em seu humano, não está errado. “A ansiedade não vai ser reforçada ao reconfortá-lo. Você não vai piorar o temor. Faça o que for preciso para ajudar seu cachorro”, diz Melissa.

Outras dicas são abafar o barulho com música suave e, se for possível, ficar com o cão em um ambiente sem janelas, pois a reação de fuga do animal está exacerbada, ele quer procurar um abrigo.

Durante anos, os veterinários trataram a fobia ao barulho com acepromazina, um tranquilizante. Ela seda o cachorro, mas não é uma medicação contra ansiedade. Durante um temporal, o cão ainda consegue ver e ouvir tudo, mas como num pesadelo em que não se consegue fugir do perigo, o animal assustado não pode se mexer para fugir. Assim, veterinários comportamentais afirmam que a acepromazina pode aumentar a aversão ao ruído.

Alguns cães se dão bem com o Prozac, mas da mesma forma que com humanos, a medicação diária leva de quatro a seis semanas para surtir efeito.

Stella era imune à medicação. Durante a temporada de tormentas, ela e Rebecca perdiam horas de sono. Rebecca tentava o reforço positivo: quando os sintomas de Stella começavam, ela ganhava guloseimas guardadas no criado-mudo.

“Depois, Stella subia no meu peito às 3h da matina, chorando, ganindo e olhando para a mesa de cabeceira. E sem temporal! Foi quando a tática acabou”, conta Rebecca.

O Sileo, a nova medicação para aversão canina ao barulho, é uma quantidade mínima de um remédio aprovado como sedativo para pequenos procedimentos veterinários – um gel insípido, medido com uma seringa, que é colocado entre a bochecha e a gengiva do cachorro, sendo absorvido em meia hora.

A Orion, empresa finlandesa que o desenvolveu, testou a medicação em centenas de cães com aversão a ruído durante a sessão de fogos de artifício do réveillon durante dois anos seguidos. Quase 75 por cento dos donos classificaram a resposta do cachorro como boa ou excelente; os animais não ficaram perturbados. A medicação dura várias horas, quando outra dose pode ser administrada.

A seringa custa US$ 30 e contém várias doses baseadas no peso. O principal efeito colateral do Sileo, em 4,5 por cento dos cães, é o vômito.

“Não sou ingênua a ponto de pensar que se trata de uma cura miraculosa”, afirma a Dra. Emily Levine, veterinária comportamental de Fairfield, Nova Jersey, mas ela a considera uma opção válida.

Para os veterinários, a solução ideal é tratar cedo da reação e dessensibilizar o cão com gravações calibradas do barulho agressivo e condicionamento positivo. Porém, o treino exige tempo, paciência e regularidade.

“Só que os humanos estão entre as espécies mais irregulares do planeta”, diz Eeg.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/

 

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