Após 124 anos, primeira mulher assume a direção da Poli-USP

Após 124 anos, primeira mulher assume a direção da Poli-USP
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Ao eleger uma mulher, a Poli dá a demonstração à sociedade de sua modernidade”, disse a professora Liedi Bernucci ao assumir o cargo de diretora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Já era tempo. Fundada em 1893, foram 124 anos para que uma mulher comandasse uma das principais escolas de engenharia do Brasil.

Formada na própria faculdade em 1981, fez toda sua carreira acadêmica por lá, com mestrado em Engenharia Geotécnica e doutorado em Engenharia dos Transportes. Se tornou docente da Poli ainda em 1986. Desde 1995 coordena o Laboratório de Tecnologia da Pavimentação.

Convivendo em um ambiente predominantemente masculino, para chegar ao posto teve que superar a desconfiança proporcionada por uma cultura machista. Nos anos anteriores, ela já havia se tornado a primeira mulher a ocupar a vice-diretoria da faculdade, além de ser a primeira escolhida pela Associação de Engenheiros Politécnicos (AEP) como “Professor do Ano”, em 2016.

“A Poli não rompe com sua tradição, pois tradição na Engenharia não é uma questão de gênero, afinal o símbolo da Engenharia é feminino, a deusa Minerva, deusa da sabedoria e da estratégia de guerra”, defendeu durante a cerimônia.

Em conversa com a reportagem, Liedi Bernucci conta um pouco sobre o universo das mulheres engenheiras.

Como é ser uma mulher de exatas no Brasil?
Houve muita mudança nas últimas décadas. Uma mudança positiva de quando eu era estudante e agora. Tanto na aceitação no mercado de trabalho em si, quanto a aceitação em funções de comando. Quando eu era estudante, quatro décadas atrás, as pessoas mal aceitavam como alunas as mulheres. No mercado de trabalho havia bastante preconceito.

Hoje, não se venceu totalmente, mas melhorou muito essa questão do preconceito no mercado de trabalho. Vendo que importa a competência na função, aos poucos as mulheres foram conseguindo se colocar no mercado de trabalho. Mais recentemente também ascenderam às posições de comando, como na coordenação de um projeto, como gerente executiva de uma obra, para tudo que o engenheiro faz. A função da gestão é mais recente, mas já está iniciada essa fase.

O ambiente é predominantemente masculino, certo?
Hoje, 20% dos alunos são mulheres. Quando eu entrei, éramos 4%. É uma evolução. O ideal é que todo mundo faça a opção pelo seu talento, não por outro motivo. Existem profissões com estigma.  É preciso quebrar isso. As pessoas precisam fazer os cursos e definir as profissões pelos seus talentos, independente de gênero, raça, cor, credo, orientação sexual ou o que quer que seja.

Como você conquistou o seu espaço?
Com o tempo, com a sua atuação, vai construindo o respeito. Ai a questão de gênero vai ficando menor perto do respeito que tem das pessoas. Quando adquire o respeito dos pares, fica muito mais difícil aparecer a questão de gênero como sendo a tônica. Vai ganhando a confiança.

Mas é desgastante isso para a mulher. Ter que ganhar a confiança dos seus pares para poder ter o seu lugar. Ela não parte do mesmo ponto. Não parte com as mesmas armas. É muito ruim que tenha que primeiro ganhar a confiança dos outros para poder ascender.

Mas, ao mesmo tempo, mostra que é viável. É uma trajetória possível, mas tem um preço. O preço de engolir muita coisa, ter que provar que é boa. Está distante [a equidade], mas acredito que a sociedade, para sua própria sobrevivência pacífica, vai ter que chegar nisso.

O que você falaria para quem diz que engenharia não é coisa para menina?
Falaria que não é verdade. É uma carreira muito boa que independe de gênero. O que você precisa é do fator intelectual, do conhecimento, da capacidade. Isso está dentro da cabeça, não está no corpo. Não requer força física.

Agora, é importante também lembrar que o preconceito não vem só dos homens. preconceito também vem das mulheres. É uma questão para ser discutida com ambos os gêneros. Não é só uma mudança de atitude masculina, mas uma mudança na cultura. É mais profundo. É a cultura machista da sociedade, que é composta por homens e mulheres.

Fonte: Galileu

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