Aposentada que ensina português a imigrantes vira ‘mãe’ de africanos em SP

Aposentada que ensina português a imigrantes vira ‘mãe’ de africanos em SP
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Voluntária ajuda alunos a buscar emprego, os visita quando estão doentes e é tida por eles como membro da família.

“Minha mãe brasileira”; “minha mãe branca”; “minha segunda mãe”. É assim que os ex-alunos de Sonia Altomar, 72, se referem à professora. Todos têm histórias para contar de algum momento em que a ajuda dela mudou suas vidas —indicando-os para um curso ou vaga de emprego, visitando-os quando estão doentes ou dando uma palavra encorajadora em algum momento difícil, por exemplo.

Há seis anos, Sonia dá aulas de português voluntariamente para imigrantes que vivem na casa de acolhida Arsenal da Esperança, na Mooca, Zona Leste de São Paulo.

A aposentada liderava um projeto de alfabetização para brasileiros em situação de rua quando começaram a chegar haitianos em grande número ao local. Formada em português e francês, era chamada pelas assistentes sociais para ajudar a traduzir as entrevistas com os recém-chegados.

“Fiquei extremamente comovida com a situação deles. Era urgente que aprendessem português, porque só assim conseguiriam se inserir na sociedade, trabalhar, entender a nossa cultura”, diz ela. “Arrumamos uma sala e aí não parei mais.”

O que chama a atenção na história de Sonia é que o acompanhamento que ela dá aos imigrantes vai muito além da sala de aula. “Qualquer problema que acontece, se uma pessoa está doente, por exemplo, ela é a primeira pessoa que comparece e dá apoio. Ela sempre vai às nossas festas, nos visita em casa”, diz Adama Konate, 36, do Mali.

No Brasil desde 2012, Adama tornou-se líder de associações de imigrantes em São Paulo e desenvolve trabalhos com a prefeitura. Ele diz que se inspirou na atuação da professora. “Aprendi muitas coisas com o trabalho dela ajudando os outros. Qualquer montanha que eu subir, o início foi na mão da Sonia. Minha mãe está na África, mas ela é a minha mãe aqui no Brasil”, afirma.

Natural de Burkina Faso, Abdoulaye Guibila, 28, trabalhava pesado na construção quando foi indicado pela professora para ser bolsista em um curso de gastronomia. Precisou ser encorajado, pois estava inseguro em relação ao seu domínio do português e à sua capacidade de aprender a cozinhar. Acabou se destacando e foi homenageado pela turma no final.

Quando conseguiu emprego como garçom em um restaurante de um bairro nobre, Sonia foi a primeira pessoa que ele convidou para comer lá. “Ela sempre acompanha nossos passos. Minha mãe, que está na África, me escreve todos os dias querendo saber se estou bem. É exatamente o que a Sonia faz comigo aqui”, diz ele, que costuma visitar a professora e o marido nos fins de semana.

Achile Kaza, 37, do Togo, também trabalha em um restaurante e convidou Sonia e outras duas voluntárias que dão aulas no Arsenal, Beatriz e Cheila, para visitá-lo. “As professoras têm um coração muito bom e se preocupam com a gente.”

Um episódio em especial o marcou. Em 2015, quando ele chegou ao Brasil, as professoras o ajudaram a enviar presentes no aniversário de sua filha, que ficou no Togo. “Elas compraram um monte de coisas e me levaram até o correio. Esse tipo de coisa um ser humano não esquece.”

Outra situação marcante, desta vez para Sonia, foi quando um aluno do Togo ficou internado em estado grave na UTI. Após perceber que ele estava faltando às aulas, as professoras souberam que ele estava doente. “Pensamos: ‘um menino negro, que não fala português, vai morrer lá se ficar sozinho’”, conta ela. “Passamos a visitá-lo todos os dias. Os médicos perguntaram: ‘onde está a família desse menino?’ Respondemos: ‘a família somos nós’.”

O caso chegou a ser considerado irreversível, mas o togolês se recuperou. Um dos recursos usados pelas professoras para animá-lo era gravar mensagens de sua família e colocar os áudios para que ele escutasse. “Isso ajudou muito. Ele ouvia e dava um sorriso”, lembra Sonia.

O Arsenal da Esperança fica nas instalações da antiga Hospedaria de Imigrantes, que acolheu 2,5 milhões de estrangeiros vindos da Itália e de outros países nos séculos 19 e 20. Atualmente, oferece cama, banho, alimentação, acompanhamento de saúde e cursos profissionalizantes para 1.200 homens, a maioria em situação de rua.

Quando começaram a chegar imigrantes em maior número, surgiu a necessidade das aulas de português. “Uma pessoa que chega a um país que não é o dela está com as raízes soltas. Uma das coisas que te torna muito desamparado é o fato de não poder se comunicar”, diz Simone Bernardi, missionário do Arsenal da Esperança.

Desde 2012, Sonia e as outras professoras ensinaram português a mais de 350 estrangeiros. Elas também levam ex-alunos para conversarem com crianças em escolas sobre migração e a cultura de seus países.

Segundo Bernardi, a aposentada é uma pessoa “honesta, disponível e com compaixão pelo outro”. “Ela tem paixão por aquilo que ela faz e se tornou uma mãe para tantos que não têm uma pessoa de referência no Brasil”, afirma.

O contato extraclasse de Sonia com os imigrantes começou quando um haitiano chamou-a para conhecer a mulher, que acabara de chegar ao Brasil. Depois disso, outros ex-alunos passaram a convidá-la para visitas quando conseguiam um trabalho ou quando nascia um bebê, por exemplo. Um médico congolês chegou a batizar a filha com o nome e até o sobrenome de Sonia, como homenagem.

A professora diz que considera essa proximidade “primordial”: “Eles estão num país estranho, sem amigos. Para se sentirem realmente acolhidos, eu tinha que participar da vida deles e eles da minha”.

O marido de Sonia a apoia e acompanha em algumas visitas. O casal tem um filho que mora na Alemanha. “Eu poderia estar viajando, meu filho sempre me cobra ir mais lá. Mas isso aqui é a minha vida. É algo que me realiza plenamente”, diz a aposentada.

Em uma das conversas com a reportagem, ela termina contando qual é o programa do sábado seguinte. “Vamos com dois meninos que já falam português percorrer supermercados para ver se eles encontram algum emprego, porque não têm dinheiro para a condução e precisam urgentemente trabalhar.”

O fato de as professoras irem junto e darem sua chancela ao possível empregador faz diferença, afirma. “Estamos respondendo por eles. E nunca tivemos nenhum problema com quem indicamos. Todos são extremamente responsáveis.”

Cheia de compromissos, Sonia diz que está “com a bateria a toda”. “A cabeça está ótima”, garante. “Só vou parar quando o físico não responder mais.”

Fonte: Folha de SP

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