Cobrador de ônibus aprende Libras para se comunicar com surdos

Visualizado 380 vezes
Cobrador de ônibus aprende Libras para se comunicar com surdos
Avalie este conteúdo

Gabriel Pinheiro da Fonseca quis tornar viagem de passageiros mais agradável.

Sem obrigação nem dever, mas preocupado com o direito. Direito de pessoas surdas de comunicarem-se livremente, em todos os espaços e instâncias, como no transporte coletivo. Com essa preocupação em mente, Gabriel Pinheiro da Fonseca, 24 anos, cobrador da empresa de ônibus Laranjal, ensinou Libras a si mesmo, a língua brasileira de sinais utilizada pelos surdos do país. Com essa iniciativa pessoal, quebrou a barreira de comunicação entre quem escuta e quem não tem esse privilégio.

Gabriel conta que achava “chato” não ter como conversar com passageiros surdos dentro do coletivo. “Eu me sentia mal”, fala. Afinal, eles têm as mesmas dúvidas que qualquer outra pessoa pode ter enquanto usuária do transporte público: “Onde fica parada X?”, “Me avisa quando chegarmos em tal ponto?” e “Esse ônibus vai para onde?”. E ele sem ter como responder.

Surgiu o interesse em aprender a língua. Foi para o YouTube, onde encontrou canais com vídeos especializados no ensino de Libras. Aos poucos foi entendendo sobre a coisa toda. Foi dentro do ônibus, seu local de trabalho, onde começou a praticar os sinais com ajuda dos passageiros, já que não é amigo nem familiar de nenhuma pessoa surda. “Eles ficam surpresos quando eu respondo usando Libras”, fala. Há quatro anos na profissão, começou a usar Libras nos últimos seis meses e pretende continuar aperfeiçoando. “Como são gestos, se não executar bem a pessoa não vai entender. Tem variações e se não fizer direito o surdo pode entender outra coisa, já que muitos sinais são parecidos”, pontua.

Quando conversa com surdos no ônibus, o cobrador aproveita também para tirar dúvidas e aprender um pouco mais, em uma troca que só tem pontos positivos. “Eu pergunto como falar algumas coisas e eles me ensinam. Assim aumento meu vocabulário”, diz.

Gabriel é firme na crença de que Libras deveria ser ensinada nas escolas, desde as primeiras séries. “Começando, pelo menos, pelo alfabeto em Libras. A partir dele, tu fala qualquer coisa. Depois, a escola deveria ensinar alguns sinais básicos. Aí todo mundo saberia o mínimo. Seria um passo para uma comunicação melhor com eles”, acredita.

Na falta de funcionários que tivessem a mesma iniciativa de Gabriel, pessoas surdas utilizam algumas técnicas para estabelecer uma comunicação, ainda que simples. É o que conta Jean Michel Farias, 31, servidor do IFSul (Instituto Federal Sul-rio-grandense). “Se eu não sei onde preciso descer, escrevo em um papel e mostro pro cobrador. Peço para me avisar, tudo através de gestos. Sento bem perto do funcionário e fico olhando, esperando ele me avisar. Mas se a pessoa souber Libras, obviamente, fica tudo mais fácil, pois ela vai transpor essa barreira”, explica – como Jean é surdo, a reportagem precisou da ajuda de intérpretes de Libras do Instituto.

À espera da Central de Interpretação
Daniel Lopes Romeu, 43, presidente da Associação de Surdos de Pelotas, também participou da conversa. “O interesse desse cobrador veio da limitação que ele sentiu ao ver os sinais. Ele aprendeu algumas coisas com esse contato com os surdos e começou a fazer essa comunicação, que é muito básica mas importante”, ressalta Daniel, também professor de Libras na Unipampa de Jaguarão. Atualmente, ele, Jean e a comunidade surda do município aguardam pela sanção da Central de Interpretação de Pelotas, projeto já aprovado pela Câmara de Vereadores. “Acreditamos que vá ser sancionada logo”, espera Jean. No Rio Grande do Sul já existem centrais de intérpretes, como em Alvorada e Horizontina, cita.

“Em qualquer lugar é importante ter acessibilidade. Principalmente em hospitais, bancos, no Sanep (Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas) e na CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica)”, cita Jean. “Esse atendimento é fundamental. Qualquer instituição pública precisa ter. Esse serviço pode ser feito, sim, através de um funcionário que já saiba Libras. Mas em muitos casos ele não substitui o intérprete”, salienta.

Segundo Jean, a Central vai garantir o atendimento com profissionais de Libras qualificados em situações com médicos, clínicas, registro de Boletim de Ocorrência na policia, atendimento com os agentes de trânsito, por exemplo, para evitar uma falha de comunicação. “Com o ônibus, pode ser mais simples – não há necessidade de ser muito fluente. Mas em atendimentos mais complexos, é preciso o intérprete”, afirma.

Fonte: Diário Popular

Se você quer receber atualizações sobre este tema ou outros de nossa página, inscreva-se abaixo:
Receba boas notícias em seu Email


Translate »